COP 26: Chile levará propostas de ação climática com enfoque de gênero

Lideranças de 24 países latinos assumem compromissos com políticas do cuidado

Por Aline Souza – jornalista e comunicadora no Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS Brasil)

Ao longo do mês de setembro o nosso vizinho Chile realizou uma série de debates públicos junto com o Ministério do Meio Ambiente, pesquisadores e gestores públicos de outros países latinos durante o Encontro Regional sobre Mudança Climática e Igualdade de Gênero. Como resultado do encontro foi elaborado um documento de posicionamento que servirá de roteiro para acelerar a ação climática com igualdade de gênero na América Latina e no Caribe e que será apresentado durante a Conferência das Partes 26 – COP 26 na Escócia em novembro. O evento contou com a participação virtual de 60 representantes oficiais de 24 países da região e uma média de 1700 espectadores por sessão de organizações da sociedade civil, academia e dos setores público e privado.

Todas as sessões de debate realizadas apresentaram boas práticas, experiências, desafios e oportunidades identificados pelos países da América Latina e Caribe durante as 7 sessões de trabalho do Encontro, relacionadas com o enfoque de gênero na formulação e implementação de políticas nacionais de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. As propostas contemplam aspectos como marcos regulatórios, financiamento climático, transição justa, experiências nacionais e subnacionais e diálogo bi-regional com a União Europeia, entre outros.

Agendas de Desenvolvimento Sustentável – Uma pergunta que feita ao longo dos eventos foi como a crise climática impacta as mulheres e meninas. A inação dos governos locais e nacionais sobre o tema gera muitos impactos negativos na vida delas. Acompanhamos a participação do Brasil no debate Mulheres Agentes de Mudança, trazendo experiências em setores dinamizadores para um grande impulso ambiental com igualdade de gênero e trocas de diferentes experiências com integração de gênero na adaptação e mitigação. O evento aconteceu no dia 28 de setembro com a presença de Camila Gramkow, que é oficial de assuntos econômicos da CEPAL – Comissão Econômica para América Latina e Caribe.

Os principais desafios apontados no debate são a pobreza de tempo feminino e os trabalhos de cuidados não remunerados que faz aumentar a pressão sobre as mulheres. Para mudar esse quadro, é preciso entender quais são as áreas estratégicas capazes de abraçar as chamadas “inversões” de investimento a ser aplicado para que haja uma recuperação econômica com recorte de gênero. Obviamente que a recuperação não é automática, no entanto, precisa existir investimento em empregos verdes para mulheres e na infraestrutura do cuidado, dessa forma, gerar oportunidades para mulheres e corpos feminizados.

Algumas áreas estratégicas são:

  • Educação e capacitação para a igualdade de acesso aos empregos verdes. No Brasil são empregos muito masculinizados. Só 11,7% dos empregos em energias renováveis são ocupados por mulheres. Importante lembrar também que nas ocupações envolvendo a educação da primeira infância a empregabilidade entre as mulheres é muito maior, porém a remuneração das professoras não acompanha a remuneração dos homens que trabalham em educação. Além disso, existe uma alta demanda por mais creches públicas e uma educação de qualidade para crianças e jovens, lugares seguros e dignos onde as trabalhadoras possam deixar seus filhos em segurança e próximo de casa.
  • Eletromobilidade do transporte urbano, um setor que seria capaz de não só empregar mais mulheres como também reduzir a poluição e a emissão de gás carbônico. Além de um plano para integrar melhor as áreas periféricas onde residem muitas mulheres de baixa renda e chefes de famílias, ou seja, aplicar o olhar de gênero na mobilidade urbana e no acesso de mulheres aos serviços básicos de educação, saúde e lazer.
  • Produção Agrícola Sustentável, uma preocupação para o Brasil, pois se estima a perda de 11 de milhões de hectares de terra cultivável até 2030 como consequência da crise climática. A cadeia exportadora vai sofrer muito e a segurança alimentar está em risco. É preciso investir na agricultura familiar e garantir práticas do manejo sustentável da terra.
  • Saúde e Cuidados, um setor que rege a economia como um todo é dominado pela presença massiva de mulheres, tanto cuidando de crianças, idosos e doentes, são elas as que mais acessam os serviços públicos de saúde familiar – posto de saúde dos bairros ou atuando como profissionais (enfermeiras, auxiliar de enfermagem, médicas). 76% dos empregos no setor de saúde são ocupados por mulheres, serviços que aliviam outras mulheres e devem ser mais valorizados. Inclusive as áreas de saúde, cuidados e educação deverão sofrer muita pressão com o avanço da crise climática.
  • Gestão das águas e saneamento básico, uma área cuja demanda por banheiros dignos, água encanada e esgotamento sanitário é enormemente liderada por mulheres, pois novamente são elas as cuidadoras de idosos e enfermos e precisam de uma infraestrutura sanitária mínima para si e para os outros membros da família sobre seus cuidados.

Algumas lições aprendidas:

Na Guatemala foi realizado um grande mapeamento de lideranças em todas as unidades federativas e criada as “unidades de gênero” que trabalham juntas em sintonia na implementação das políticas nacionais. As indígenas e mulheres das comunidades são ouvidas e integradas durante o processo. “Estamos empenhados em fazer com que as vozes das mulheres e meninas sejam ouvidas na COP 26, especialmente as mais marginalizadas, que são as que mais sofrem com as mudanças climáticas”, afirmou Alicia Herbet, enviada especial para a igualdade de gênero à COP 26.

Existe um chamado aos tomadores de decisão para implementar o Plano de Ação de Gênero, bem como integrar a sociedade civil e a academia a fim de acabar com as desigualdades de gênero e avançar em direção ao desenvolvimento sustentável.

Fica nítido que é necessário um conjunto de políticas públicas que sejam construídas coletivamente ouvindo as principais vozes envolvidas nos impactos climáticos para que o ODS 5, que trata da igualdade de gênero, seja levado em consideração.

Baixe aqui a publicação dirigida ao Brasil da política “Big Push” econômico de gênero

Baixe aqui a publicação sobre a política “Big Push” econômico de gênero para América Latina

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Todas as sessões do Encontro do Chile: AQUI

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