Democracia e Sustentabilidade: desafios e diferenças do ativismo nos séculos XX e XXI

IDS e Politize! realizam roda de conversa sobre juventudes pela construção de uma democracia plena

Estamos nos aproximando de um momento que marcará profundamente as nossas vidas, e que talvez seja a decisão mais importante que a humanidade precisará tomar ao longo de toda sua existência. A crise climática global é uma realidade que gera ainda mais desigualdades socioeconômicas a cada dia e disso já sabemos. Relatório recente da ONU aponta o aumento da temperatura global em 1,5 grau e diversas pesquisas já informam que a parcela dos mais pobres e vulneráveis sofrerão bem mais as consequências dessa realidade e da ausência de políticas públicas concretas para o seu enfrentamento. Mas o que pode ser feito para reduzir seus impactos, gerar uma adaptação rápida (mas não sem custos) e garantir que nossa sociedade tenha chances de continuar existindo nos próximos anos?

O IDS, em parceria com o Politize!, realizou no dia 26 de outubro o primeiro da série de debates “Espaços de Ativismo”  com o tema: “Democracia e Sustentabilidade: desafios e diferenças do ativismo das juventudes nos séculos XX e XXI” com transmissão ao vivo pelo canal do Youtube do IDS.

  • O que podemos aprender com aqueles que vieram antes de nós e já estão atuando em defesa do meio ambiente há várias décadas?
  • O que tem que ver a democracia com a crise ambiental?  
  • Quais reflexões podemos ter a partir da atuação das juventudes no passado e quais perspectivas têm alimentado as juventudes de hoje para que o Brasil se transforme em um país sustentável e com uma democracia plena?

Essas foram algumas das questões que o evento discutiu a partir da experiência dos convidados/as.

Esse projeto pretende tratar de um tema fundamental: a relevância da juventude para o fortalecimento de nossa democracia e sustentabilidade, pois uma não prospera sem a outra, muito menos com a ausência dos jovens, herdeiros da vida em sua continuidade.

Construir a democracia no século XXI requer que olhemos para nosso passado com o intuito de aprender com ele e com os momentos emblemáticos que exigiram de alguns de nós muita coragem. Aprender com a mobilização de pessoas como as nossas convidadas de honra Marina Silva (ex-Ministra e Associada-Fundadora do IDS Brasil) e Regina Lucia dos Santos (Coordenadora do Movimento Negro Unificado em São Paulo), ícones de uma resistência para o campo socioambiental, político e antirracista do Brasil, é uma oportunidade única.

Para esse diálogo intergeracional acontecer, não podemos deixar de mencionar a grande presença de jovens lideranças como Luma Menezes (Vereadora mais jovem da história de Alagoinhas/BA) e Gabriel Lepletier (LIVRES), ambos integrantes do programa Embaixadores Politize!, parceiros do IDS nessa ação.

Acompanhe as principais contribuições para esse debate e assista também a transmissão completa abaixo.

Regina Lucia – “Sankofa”: viver o presente, olhar o passado para construir o futuro

Após contar os momentos marcantes de criação, em 1978, do Movimento Negro Unificado – MNU, Regina apresenta também a questão endêmica que é o racismo no país. Denunciou a falta de liberdades individuais agravadas pelo silenciamento dos negros naquela época. “Ainda são muito atuais nossos desafios para o enfrentamento do racismo. Para se ter uma ideia, desde a sua fundação o Movimento prega que seja ensinado nas escolas brasileiras a cultura de herança africana, algo que só veio a se concretizar no século XXI com a Lei 10639/2003. Não precisamos mencionar a violência policial contra a população negra, principalmente os jovens negros de periferia. Estivemos envolvidos nas manifestações pelas Diretas Já e da retomada do movimento sindicalista brasileiro, a última fronteira em defesa dos direitos dos trabalhadores que já existiu em nosso país”, afirmou. Para ela, os jovens são a energia, os mais velhos são a experiência, é preciso unir esses dois saberes de potência para fazer com que todos os construtores da nação sejam de fato cidadãos dela.

Coordenadora do Movimento Negro Unificado em São Paulo.

Marina Silvauma sobrevivente em busca de um novo modelo de ser, uma nova visão de mundo

Lembrando o início de sua trajetória como uma ativista política e ambiental do Brasil, Marina salientou que mais importante do que nos perguntar o que uma geração pode ensinar para a outra, é entender que esse aprendizado é mútuo. “Comecei meu aprendizado político com Chico Mendes em defesa da ecologia, do meio ambiente e dos povos da floresta e de seu modo de vida, uma luta que depois veio a se transformar em uma Aliança envolvendo vários atores sociais. Cada processo político cria uma forma de expressão das necessidades de afirmação daquele tempo e pretende desenvolver uma espécie de ruptura com os processos que estão postos. Nós, naquela época, defendíamos a floresta com nosso próprio corpo, uma tática muito inspirada em Gandhi na libertação da Índia colonial. Mas o Estado naquele tempo, assim como agora, também defendia os fazendeiros, os ‘donos’ da terra ocupada muitas vezes ilegalmente. Durante minha juventude eu vi serem assassinadas seis pessoas que estavam lutando pela causa ambiental que é uma causa de todos nós seres humanos. Hoje nós estamos vendo o ativismo autoral, das pessoas, onde as instituições são um suporte, diferente de como era antigamente com os partidos políticos e centrais sindicais. Lamento muito o fato de que o Brasil continua sendo um dos países mais violentos para os ativistas e defensores de direitos humanos no mundo. E estamos indo para a COP 26 desanimados. Em um momento em que se tem tanta informação, diagnóstico e estudos científicos, parece que nada está sendo capaz de nos tirar do precipício que a humanidade se encontra. Investem-se trilhões na destruição da vida, mas os países do mundo não conseguem arrecadar nada mais que parcos recursos passando o chapéu para enfrentar a crise climática”, afirmou Marina Silva.

Historiadora, ex-ministra do Meio Ambiente e figura pública. É associada fundadora do IDS Brasil.

Não deixe de conferir o poema que ela recitou durante a live. Emocionante!

Luma Menezes – Como atrair os jovens para a política quando estamos diante um cenário de tamanha desinformação e polarização?

A mais jovem vereadora eleita no país nas últimas eleições municipais, Luma chega trazendo a importância de termos um olhar atento para as referências de quem lutou as lutas de outrora, abrindo os caminhos para que possamos estar aqui agora. Ela também lembrou que embora tenhamos avanços a celebrar, o Brasil ainda tem apenas 15% de representação feminina na Câmara dos Deputados, destacando o problema da violência política de gênero que está calcada na cultura machista e patriarcal do poder. Para ela, esse fator é um ponto fundamental para se debater democracia, algo que contribui bastante para torná-la fragilizada. “A educação política para nosso país é fundamental, ela é capaz de transformações sociais profundas e por causa disso não é incentivada, pois os donos do poder ainda são a maioria na política institucional e nos cargos eletivos. A conscientização da importância do voto para a cidadania é fundamental ao jovem hoje, que anda descrente e desacreditado da política, que por sua vez também carece de bons quadros para nos representar”, disse Luma. Ela também destacou a importância dos municípios nessa mudança de cultura política para atrair os jovens nesse sentido. De acordo com ela “a juventude do Brasil não é o futuro, ela é o presente, é o legado que está sendo construído aqui e agora”, disse Luma.

Vereadora mulher mais jovem da história de Alagoinhas. Na Câmara, é presidente da Comissão Especial de Cuidado e bem-estar animal e Procuradora Especial da Mulher. Bacharel Interdisciplinar em Humanidades e em Administração pela Universidade Federal da Bahia.

Gabriel Lepletier – Acreditar no jovem é o primeiro passo

Os principais desafios para Gabriel de atrair os jovens para a política é ter o reconhecimento de que a juventude tem seu valor e isso dialoga profundamente com as oportunidades que lhes são dadas. Também é importante cultivar o entendimento de que os jovens não são chaveiros, merecem protagonismo na esfera de decisão. Outro ponto que ele destaca é a comunicação dos temas importantes para a sociedade, que muitas vezes não é capaz de engajar os jovens e obter deles o envolvimento necessário. “Existe espaço para a juventude ocupar e na política não existe só o trabalho do representante eleito, mas todo um trabalho técnico de assessoria e bastidores que pode ser feito, além da importância de atuar politicamente em outras esferas sociais e coletivas também”.

Cientista político e coordenador de relações governamentais e advocacy do movimento LIVRES. É também líder da rede Politize!

Confira o evento na íntegra:

O IDS, em parceria com o Politize, pretende explorar, por meio de um diálogo entre gerações, o papel histórico das juventudes na catalisação de mudanças sociais. Essa é uma iniciativa que faz parte da série de debates “Espaços de Ativismo” promovida pelo IDS, que tem a previsão de realizar outros ao longo de 2022.

Fique ligades!

Sobre o IDS Brasil: O IDS Brasil é uma organização que atua há mais de 10 anos promovendo conhecimento e soluções para políticas públicas e iniciativas locais e nacionais de desenvolvimento socioambiental e incidência política.

Sobre a Agenda de Formação e Espaços de Ativismo do IDS:  Essa iniciativa tem como objetivo geral promover, por meio de ações intergeracionais, a educação para a sustentabilidade e a democracia entre jovens, entre 18 e 35 anos, lançando um olhar crítico sobre as agendas das respectivas temáticas e sua intersecção na contemporaneidade.

Sobre o Politize!: O Politize! é uma organização da sociedade civil que tem a missão de formar uma geração de cidadãos conscientes e comprometidos com nossa democracia.  Para isso, levamos educação política para qualquer pessoa em qualquer lugar, sempre com respeito pela pluralidade de ideias.

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