O presente das crianças e o poder de imaginar o futuro

13/10/2026

Minha filha tem agora 5 anos. Entre uma rotina de cuidados, de trabalho e do lar, vejo crescer o meu medo em relação ao seu futuro.

Se as taxas de natalidade vêm caindo continuamente nos últimos anos e as mudanças climáticas já são citadas como motivo para as pessoas não quererem filhos, também é verdade que se deposita nas crianças e nos jovens a responsabilidade de fazer as mudanças que as gerações anteriores não conseguiram.

Além disso, o risco de que faltem recursos básicos para condições dignas de vida coloca o “apocalipse” entre as preocupações das mães com o futuro dos seus filhos. No mínimo, eles estarão sujeitos a um mundo mais conflituoso, bélico, de migrações forçadas e de crescente privatização de bens naturais coletivos pelas grandes corporações e pelas megapotências. É esse futuro que está sendo negociado.

Lembro-me da minha infância na praia, onde ninguém imaginava haver desigualdade. Ser criança era poder criar e imaginar o presente, sem que as carências e ausências recaíssem sobre nossos ombros. Se o mundo cor-de-rosa das crianças permitia que vivêssemos a vida despretensiosamente, também gerava o poder de imaginar uma sociedade de paz e prosperidade.

Hoje, olho para o passado e encontro as bases sobre as quais é possível construir uma sociedade mais justa e um país com desenvolvimento sólido. Entre avanços e retrocessos, é evidente que as políticas públicas implementadas desde a redemocratização foram fundamentais para assegurar as garantias constitucionais de direitos humanos ao povo brasileiro.

A estabilidade democrática de que o Brasil precisa vai além da confiança nas instituições: depende, sobretudo, da continuidade das políticas de participação cidadã que viabilizaram a inclusão social, a proteção dos trabalhadores, a saúde das mulheres, a defesa do meio ambiente, a valorização dos povos e comunidades tradicionais, a distribuição de renda e o combate ao racismo, em um país marcado pelo extrativismo e pela expropriação das suas riquezas.

E o que o Dia das Crianças tem a ver com isso? O fato é que a palavra mudança carrega em si um mar de incertezas. É preciso tomar cuidado com o legado que deixaremos de presente aos nossos filhos.

O ECA Ambiental, aprovado pelo Congresso neste ano, reconhece formalmente o direito de crianças e adolescentes à natureza como uma garantia de prioridade absoluta, alterando o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei nº 8.069/1990), a Política Nacional do Meio Ambiente e a Política Nacional sobre Mudança do Clima. Na prática, assegura o acesso a ambientes naturais saudáveis e o brincar livre; orienta os municípios a planejar rotas seguras, praças e áreas verdes na escala dos bairros e das escolas; incentiva pátios naturalizados e educação ambiental nas redes de ensino; e garante prioridade de atendimento e rotas de fuga para crianças e adolescentes em desastres climáticos, com atenção especial à primeira infância, às pessoas com deficiência e às comunidades tradicionais. A lei prevê também a escuta ativa de crianças e adolescentes na formulação de políticas públicas.

Não é todo dia que o Congresso aprova medidas a favor de um futuro mais sustentável. O Farol Verde do IDS confirma um cenário crítico, de baixa convergência da maioria dos deputados e senadores da 57ª legislatura com a agenda ambiental.

Por outro lado, políticas estruturantes como o Plano de Transformação Ecológica e o Plano Clima foram desenhadas para ampliar a capacidade do Governo Federal de desenvolver iniciativas e alavancar o financiamento da chamada Economia Verde.

Há um longo percurso pela frente, e novas medidas são necessárias, como as recomendadas na Bússola 2026: Brasil Potência Socioambiental. Mas isso só será possível com o compromisso da sociedade e das autoridades públicas.

As eleições colocam em xeque um programa de governo e de país que posiciona o Brasil como liderança em sustentabilidade, e as escolhas feitas agora definirão o futuro de muitas gerações.

As conquistas que nossos filhos terão na vida adulta dependem da intersecção entre o universo de possibilidades e a liberdade de escolha. Se a educação é preponderante para ambas, o meio ambiente em que crescem também é.

Não se pode terceirizar a responsabilidade por nossos próprios filhos.

Que a infância e a política sejam terreno fértil para o desenvolvimento sustentável.

Carolina Mattar, internacionalista, é diretora-executiva do IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade).

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