Incoerências Humanas, superação e interdependência: o sentido da Democracia

IDS Opina com Ricardo Young

Por Aline Souza – Jornalista e Comunicadora do IDS

Na estreia do IDS Opina, série de entrevistas com os principais nomes do campo socioambiental do Brasil, vamos conversar com Ricardo Young, presidente do IDS, empresário, professor, ambientalista e político brasileiro. Filiado a Rede Sustentabilidade (REDE), foi vereador do município de São Paulo, eleito nas eleições de 2012. Ricardo foi um dos disseminadores em 2009 da “Carta da Terra” no Brasil, documento mundial que formula as bases éticas para uma nova interação humana no planeta, em equilíbrio social e ambiental.

Confira!

IDS – Ricardo, você participou de movimento estudantil nas lutas contra a ditadura militar brasileira e pelas liberdades democráticas na sua juventude. Hoje, qual a sua visão sobre a nossa democracia? Ela está em risco? O que o totalitarismo de outrora tem a ver com o de agora?

Ricardo Young – A questão da liberdade é absolutamente essencial para a evolução da civilização. Todo o processo ditatorial e autocrático que coloca em risco esses sonhos humanos, dos direitos, da liberdade de expressão, da diversidade,  são elementos que tolhem a evolução. Se tirarmos um retrato do período da ditadura no Brasil, vamos ver que houve um certo desenvolvimento econômico atrelado à uma visão desenvolvimentista, algo que nos endividou profundamente, mas que foi um fracasso sob o ponto de vista do desenvolvimento das humanidades, das artes, da ciência e tecnologia. Evolução não combina com ditadura. A evolução do espírito humano não combina com ditadura.

O que ocorre hoje com a democracia é uma crise que não tem a ver apenas com a realidade brasileira isolada. Aqui temos visto a polarização, a existência de uma extrema direita no poder, algo que devemos lidar e que torna os tempos ainda mais difíceis. No entanto, desde 2010 e 2011 existiram fenômenos como a Primavera Árabe, as jornadas de junho de 2013 no Brasil, os movimentos de Ocupa Wall Street nos EUA, ou seja,  a democracia vem sendo questionada em todo o mundo. As novas dinâmicas sociais mudaram a forma de participação e disseminação de informação na sociedade. A democracia clássica tal como a concebemos foi pensada em um tempo em que a inclusão social de diversas classes e a participação sequer eram consideradas. A democracia está sofrendo uma espécie de desatualização em relação à dinâmica de nosso tempo. Isso compromete formas através das quais processos democráticos se dão, mas não deslegitima a democracia em si como regime político. O regime democrático precisa entender as novas dinâmicas das redes sociais, o uso de dados, o big data, o papel da inteligência artificial a serviço de uma sociedade com valores humanos igualitários. É preciso desconstruir os velhos conceitos de classes e olhar para as novas formações dos tecidos sociais que são complexas e acabam destruindo o conceito tradicional de partidos políticos. Hoje é difícil encontrar partidos que expressem as novas tendências sociais de nosso tempo. Todo o drama que vivemos hoje passa por um pacto de repensar o processo democrático como um todo.

Também não podemos ignorar que o país que mais cresce na crise da democracia é a China usando o capitalismo de estado, liberdade de mercado e ditadura na política. Esse modelo só prospera na China, mas está inspirando outros países que começam a achar que o totalitarismo pode ajudar o mercado. Ao mesmo tempo em que vivemos uma crise de atualização histórica da democracia, surge um modelo de desenvolvimento e representação política que não tem nada a ver com democracia. 

IDS- Inimaginável hoje em dia qualquer possibilidade de realizar uma resistência social no contexto que se viveu naqueles anos [de chumbo]. Você acredita que as tecnologias sociais são capazes de se sobrepor às tecnologias que hoje servem ao totalitarismo de vigilância? Como podemos lidar com essas questões do nosso tempo?

Ricardo Young – Karl Marx dizia que a história não se repete a não ser como farsa ou como tragédia. Estamos vendo a história se repetir de maneira trágica no seu sentido grego e no sentido literal também. A estratégia que o fascismo usou no início do século XX por meio da propaganda e da mentira, é a mesma estratégia hoje adotada pela extrema direita nas redes sociais e em alguns casos pela esquerda também. Em 2014 investiu-se pesadamente na tática de desinformação para desconstruir reputações como a de Marina Silva que foi bombardeada nas mídias sociais naquela época para formar a opinião pública. A intenção é fazer com que a mentira seja percebida como verdade. 

Estamos vendo hoje uma nova forma com que as pessoas se informam, nessa nova realidade. Pesquisas apontam que a maioria da população (mais de 70%) busca informação em redes sociais, muitas vezes chega até ela de modo passivo.   Esta é a garantia de sucesso dessa estratégia. 

Embora a mídia tradicional tenha seus vieses, existe um ordenamento institucional rigoroso, há algum controle social para concessões desta mídia tradicional. Já as mídias sociais não têm esse controle tão institucionalizado, [embora existam legislações inéditas no Brasil como o Marco Civil da Internet que já regulamenta seu uso em diversas situações]. Existe então uma apropriação da percepção de realidade. O que é agravado pela ausência de uma tradição de pensamento científico e crítico no país. O maior risco da democracia hoje é a apropriação exercida por aqueles que controlam ou usam as mídias sociais habilmente para criar narrativas que distorcem a realidade. 

Temos tarefas duras pela frente. Desenvolver o uso responsável das redes sociais – uso de dados- respeito à privacidade – mas ainda não temos antídotos eficazes contra a percepção distorcida da realidade. Como exemplo a disseminação de que a vacina chinesa é uma tática para a China dominar o Brasil. Tudo vai ficando muito difícil porque a desinformação vai se multiplicando, mediada por esse tipo de mentira. 

Os bons agentes políticos e públicos têm duplamente, nesse contexto, uma responsabilidade rigorosa de preservar o que é verdade para além do interesse pela disputa de poder. Isso significa ser absolutamente prudente nas suas afirmações e levar em conta dados científicos para preservar o bem comum.  É desse tipo de maturidade que estou falando e que a maioria dos agentes públicos no Brasil não possui.

IDS- Como diz a música…“É preciso chuva para florir”. Hoje o Brasil enfrenta um dilema entre os setores produtivos, empresariais e o paradigma do crescimento econômico que, nos moldes como conhecemos, visa o lucro sem se importar muito com as questões ambientais. Nossa maior preocupação é garantir a China como compradora de nossa soja custe o que custar [o agro é pop]. Estamos destruindo áreas verdes para alimentar porcos do outro lado do mundo.

Dentro da sua vivência em gestão empresarial inovadora, existe alguma esperança de entendimento global acerca da mudança do atual modelo econômico que já se mostrou ultrapassado? É possível pensar em termos humanos/ cidadania global/ ao invés da competição entre nações por soberania econômica / militar?

Ricardo Young – Geralmente temos uma leitura preconceituosa do setor empresarial. É verdade que há setores empresariais que se interessam apenas pelo lucro, de forma gananciosa e exclusivista. Mas não é a maioria dos empresários que pensam assim. A Revista Forbes já indicou bilionários brasileiros que lideram e colaboram com iniciativas filantrópicas, de educação, combate à pobreza, meio ambiente e outras atividades sociais, para dar um exemplo não linear. Essa relação direta entre empresariado e o individualismo egocêntrico é uma dessas distorções que vêm sendo propagadas. Tem uma grande parcela de empresários que está olhando para as ESG – Governança Socioambiental como principal estratégia de seu negócio pelos próximos vinte anos, incorporando na sua agenda estratégica os ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Sou professor do IBGC e dou aulas para presidentes e conselheiros de organizações. E há dois anos eu faço isso, além de colaborar na coordenação do programa de governança socioambiental para esse público. Nossos debates passam longe de um pensamento em lucro doa a quem doer. O empresariado precisa lucrar até mesmo para se manter como empresário. Entretanto, o imperativo para a agenda de exportação na economia brasileira, você tem razão, é muito forte tanto para soja como também para a pecuária. Também é verdade que a mudança climática altera as estruturas dos próprios países  que compram e vendem. Por indução, se queremos melhorar a competitividade do Brasil, é preciso se adequar às regras de gestão socioambiental e ao papel do mercado na mitigação dos impactos climáticos assim como na redução da desigualdade. O conceito de Capitalismo das Partes Interessadas é um exemplo de uma forte tendência de mudança na cultura empresarial tradicional. O assunto foi um dos temas principais tratados no Fórum Econômico Mundial, em Davos, em 2020 e se refere à avaliação de como companhias conseguem impactar e gerar valor não apenas para seus investidores e acionistas, mas também para todas as partes que possam sentir o reflexo direto ou indireto de seu sucesso -ou fracasso. Ou seja, o mundo está mudando e as empresas precisam se responsabilizar também.

E, por fim, nós somos uma comunidade global, queiramos ou não. As mudanças que nós assistimos em nossa chancelaria são consequência das ações de um presidente que alçou o poder com a ilusão de que poderia fazer uma gestão completamente nacionalista e autocentrada em supostos interesses brasileiros, mas se deu mal no afã de confrontar a todos. Agora está tendo que se sentar com Biden, com a China, com a comunidade europeia e com os líderes da América Latina. O mundo vive hoje o pior momento do risco climático e o Brasil, como maior produtor de insumos agrícolas e pecuários, está na reta dessa ameaça. 

No Artigo da página 22 que assinamos (André Lima, João Paulo Capobianco e Ricardo Young) há dados que mostram que muitos parlamentares da base do governo simplesmente “não fecham” com o governo na questão ambiental. E por esse motivo que a destruição das leis ambientais não foi maior recentemente. Muitos empresários e iniciativas da sociedade civil, cito aqui a Coalizão Brasil pelo Clima, estão estabelecendo estratégias nessa direção e têm sido responsáveis por essa mudança que está acontecendo no rumo da economia verde. Trata-se do fazer. Sem esquecer das dificuldades em fazer. Mas está sendo feito. O exemplo da Suzano é concreto, primeira empresa brasileira premiada pela captação de recursos de longo prazo no exterior voltada à agenda socioambiental de suas práticas, com milhões de dólares em economia. Um trabalho com ESG e diretrizes para ODS. As empresas que conseguirem compor suas estratégias com base nisso, terão suas vidas mais fáceis em um futuro próximo.

Como sociedade, nunca levamos tão a sério a desigualdade social e os temas ambientais como hoje. É imperativa a busca pela saúde do planeta e da vida. Algo que é maior do que os países e a disputa imperialista por territórios. Isso ameaça a vida da civilização. A própria criação da Nações Unidas – ONU após a 2a guerra mundial atesta isso. Foi estabelecida uma governança planetária, uma modelagem multilateral para tal. É tempo de uma nova ética planetária desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Concomitante à financeirização do mundo na década de 1990 ocorreu a Rio 92, reforçando essa ética social da vida. Em seguida temos a Carta da Terra em 2000. Tudo isso converge nas ODS e em Paris – para a década 2020-2030- visando lidar com o desafio planetário de superação desses dilemas.

Se não houver planeta, de que adianta Rússia e China serem líderes econômicos ou não? Se não houver planeta, não adianta ter país rico ou país pobre. A pandemia de Covid – 19 é o retrato da humanidade compartilhando uma doença, que tem a ver com uma questão sanitária de saúde pública, que nos empurra para uma interdependência planetária. Se não fossem os diversos países trabalhando em conjunto em prol da vacina, teríamos uma vacina em pouco menos de um ano? Não teríamos. E foram as Universidades, os centros de pesquisa, os professores e cientistas dos países. Foram as fundações doando recursos. Isso em conjunto apontou o caminho para sair da pandemia. Não há mais espaço para nacionalismo e disputas infantis. Precisamos de um novo repertório ético e uma nova ética de mercado. Precisamos de uma ação global interdependente para a mitigação da crise do clima e combate à desigualdade, consolidando e reforçando as instituições democráticas de caráter global.

IDS- Inspirados pela Carta da Terra, o movimento global em direção a um mundo mais justo, sustentável e pacífico, como podemos transformar a consciência em ação por um planeta próspero, com uma cultura de paz e cooperação? Se juntos criamos realidade, o que está faltando para isso acontecer e unir a democracia com a sustentabilidade?

Ricardo Young – A resposta é simples, mas não é fácil: cooperando, agindo e fazendo. Como Gandhi sugeriu: seja você o mundo que quer transformar. A tecnologia coloca todo mundo em todo lugar interligado. Estamos nessa sociedade global para o bem e para mal via redes sociais, independente de idioma.  Não é fácil. Temos profundas contradições. Mudar a rotina de nossas vidas pode não ser óbvio. Por exemplo: usar menos o automóvel, consumir menos, reciclar, estar atento ao bem estar dos animais, compreender a dimensão ambiental etc. São exemplos de uma mudança na forma de existir no mundo. Harmonizar o querer, o fazer e o existir. Exigir a coerência absoluta não é o melhor caminho, somos parte da cultura social, temos graus diversos de consciência repletas de contradições. 

Há diversos exemplos de elementos culturais que vão criando espaços para uma mudança maior. Não há outro caminho a não ser fazer no tempo correto e da forma correta. Criar condições para as pessoas lidarem com as contradições ao invés de acusá-las por serem contraditórias, é o grande desafio da sociedade. A cultura de polarização e intolerância que temos hoje não ajuda a fazer essa mudança com mais conforto, compaixão e solidariedade no processo de mudança. 

IDS – Na sua visão, é possível o Brasil restaurar o seu caminho de crescimento econômico após as fatídicas eleições de 2018 e da pandemia de 2020?

Ricardo Young – Outra vantagem de ser mais antigo é saber que sim. Somos capazes! Eu sei que tudo continua após todas as crises, o Brasil não vai acabar aqui. Ele continua. Nenhuma das crises anteriores derrubou o Brasil.  A única coisa que pode derrubar o Brasil é a ignorância da nossa elite política, se ela persistir por muito tempo ela pode derrubar o Brasil, mas eu acredito que não vá acontecer. Afinal, até para a burrice há limites! E essa é a beleza da democracia. Ela não é perfeita e nem confortável. E para voltar ao início de nossa conversa, só na democracia as contradições se manifestam e são resolvidas, com ela conseguimos ter pluralidade de ideias, o jogo de pesos e contrapesos que vão neutralizando os excessos. A democracia permite que haja evolução, não no tempo que gostaríamos, mesmo as monarquias evoluíram muito com o parlamentarismo.  A diversidade de ideias é a única resposta. É o único sistema que permite que o processo civilizatório se expresse em todas as contradições que ele tem. 

 Como na natureza, a evolução só se dá pelo exercício da complexidade. A evolução é contradição. Sabemos que há problemas. Estamos olhando para nosso espelho enquanto civilização e cidadãos. A solução não é reprimir, é compreender de fato onde existem as contradições e não assistir passivos, mas sim contribuir para resolvê-las. Pensar na melhor forma de usar as redes sociais toda vez que for usar. Minha ação tem que levar em consideração as contradições do conjunto da sociedade. A democracia é o sistema que melhor permite que a inteligência social opere em sua plenitude nas mudanças e na melhoria da civilização. 

Leia mais:

https://cartadaterrainternacional.org/ 

https://brasil.un.org/pt-br/123507-onu-mulheres-cepal-e-fundacao-friedrich-ebert-lancam-relatorio-sobre-genero-mudancas

https://www.oxfam.org.br/noticias/golpe-militar-de-1964-lembrar-sempre-repetir-jamais/

https://piseagrama.org/somos-da-terra/

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/601883-brutalismo-do-antropoceno 

https://youtu.be/m6Sfa34XKCo Big PUsh – mudar o paradigma economico da sustentabilidade

https://contee.org.br/davos-e-o-capitalismo-das-partes-interessadas

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