15/09/2026
Por IDS Brasil
O cenário global ingressou em uma fase de aceleração histórica na qual as crises já não ocorrem em sucessão cronológica, mas em absoluta simultaneidade. O conceito de multicrise — ou permacrise — reflete uma realidade na qual os colapsos ambiental, geopolítico, institucional e social se alimentam mutuamente. Não estamos diante de meras turbulências passageiras na ordem internacional, mas de uma ruptura profunda nos padrões civilizatórios que moldaram o pós-Segunda Guerra Mundial e os processos de redemocratização global.
A contradição fundamental do nosso tempo reside no choque entre a soberania inalienável dos povos sobre seus territórios e a física implacável da crise climática. A natureza, os rios e a atmosfera não reconhecem fronteiras políticas nem pedem passaporte. Secas severas, o derretimento de geleiras e tempestades extremas não respeitam divisões regionais. Por isso, a preservação da verdadeira autonomia territorial e social de qualquer nação depende, paradoxalmente, de uma arquitetura renovada de cooperação multilateral. Sem o compartilhamento maciço de financiamento internacional e tecnologia, a soberania torna-se uma ilusão frágil diante de colapsos ambientais globais.
A Recessão Democrática e o Motor Autocrático da Degradação Ambiental
O sintoma mais grave da presente conjuntura é a recessão democrática global. Dados do V-Dem Institute (Varieties of Democracy) revelam que cerca de 72% a 74% da população mundial vive hoje sob regimes autoritários ou democracias eleitorais gravemente enfraquecidas, e o nível de democracia desfrutado pelo cidadão médio global retrocedeu aos patamares de 1985. Pela primeira vez em duas décadas, as autocracias ultrapassaram numericamente as democracias no mundo. Esse diagnóstico é corroborado pela Freedom House, que registra o 19º ano consecutivo de encolhimento das liberdades globais, com mais de 40% da humanidade vivendo em países onde direitos políticos e civis sofreram deterioração direta.
Existe uma conexão direta entre o avanço da autocratização e a aceleração da degradação socioambiental. O negacionismo climático não é apenas uma distorção ideológica, mas uma ferramenta deliberada de sustentação de poder do populismo autoritário. Para cooptar elites econômicas e financiar redes de clientelismo, regimes e lideranças autocráticas promovem o desmonte de órgãos ambientais, o ataque à ciência, a perseguição a povos originários e a desregulamentação do uso do solo, abrindo caminho para o extrativismo predatório, a mineração ilegal e a expansão desenfreada de combustíveis fósseis. O negacionismo converte-se, assim, em um motor de destruição ecológica.
A Geopolítica dos Impactos Climáticos e o “Loop” da Barbárie
Essa dinâmica retroalimenta crises humanitárias avassaladoras em todo o planeta. Os recentes desastres no topo do mundo, com o colapso de geleiras e deslizamentos devastadores no Tibete e no Nepal, demonstram como os choques climáticos em ecossistemas de alta montanha ameaçam bacias hidrográficas cruciais para bilhões de pessoas. Na América Latina, tempestades e secas extremas e terremotos em países com tecidos sociais fragilizados, como a Venezuela e Colômbia, multiplicam a vulnerabilidade social, empurrando populações para a migração forçada. Enquanto isso, o Norte Global assiste à quebra sistemática de recordes de temperatura — superando os 45°C no Mediterrâneo, além de incêndios devastadores —, o que expõe a fragilidade de suas infraestruturas e desmistifica a ideia de que a riqueza econômica seria capaz de blindar qualquer nação contra o Antropoceno.
Cria-se, assim, um perigoso “loop da barbárie”: a degradação ambiental provocada pela desregulamentação autocrática gera escassez, desastres e instabilidade social. Em seguida, os próprios líderes autoritários capturam o medo e o desespero populacional para decretar estados de exceção, fechar fronteiras, suprimir direitos civis e isolar suas nações da cooperação internacional, aprofundando o ciclo da tirania.
O Multilateralismo Pragmático e a Escala das Políticas Públicas
Superar essa espiral exige redefinir o papel das instituições globais e da diplomacia climática. A COP 30, realizada em Belém do Pará, no coração da Amazônia, representou um teste decisivo para demonstrar que o multilateralismo pode gerar instrumentos práticos de justiça financeira e transição tecnológica. Mecanismos globais para remuneração de florestas em pé, o rigor no monitoramento das metas nacionais de emissão (NDCs) e a pressão pela eliminação progressiva da dependência dos combustíveis fósseis são pontes indispensáveis para injetar recursos do Norte Global no desenvolvimento sustentável do Sul Global.
Entretanto, se os acordos multilaterais estabelecem os parâmetros, cabe às políticas públicas domésticas converter esses compromissos em transformação real nos territórios. As políticas estatais possuem a escala e a força coercitiva legal necessárias para deter a barbárie.
Isso exige a implementação firme de planos de comando e controle territorial — aliando tecnologia de satélites à restrição automática de crédito bancário para infratores ambientais —, ao mesmo tempo em que se utilizam incentivos fiscais para acelerar a transição da matriz energética em direção à eólica, solar e hidrogênio verde. Nas cidades, a adaptação climática deve se materializar na criação de infraestruturas resilientes e “cidades-esponja” que protejam populações vulneráveis. Do mesmo modo, combater a erosão institucional exige políticas corajosas de regulação das plataformas digitais, responsabilizando algoritmos pelo financiamento da desinformação negacionista que destrói o debate democrático.
O Papel Histórico e Pragmático do Brasil
Nesse xadrez global, o Brasil ocupa uma posição estratégica e singular. O sucesso diplomático na condução da agenda climática a partir da Amazônia consolidou o país como um mediador incontornável entre as demandas do Sul Global e os compromissos do Norte Global.
Detentor de uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, da maior biodiversidade do planeta e de uma tradição diplomática pacifista, o Brasil precisa liderar pelo exemplo interno. Isso significa transformar o discurso multilateral em prática doméstica inflexível: zerar o desmatamento ilegal, garantir a integridade dos territórios indígenas e enfrentar com transparência as contradições internas, como os dilemas de exploração de hidrocarbonetos na Margem Equatorial.
Para o IDS Brasil, o desenvolvimento sustentável não é uma pauta setorial, mas o único vetor ético e político capaz de conter a ruptura civilizatória. Proteger a integridade do planeta e fortalecer a governança multilateral não são atitudes que fragilizam a soberania; pelo contrário, são as únicas vias possíveis para garantir a dignidade humana, a segurança territorial e a sobrevida das democracias no século XXI.
Edição: Dal Marcondes
IDS Brasil
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