Transição Climática Justa: O Futuro da Agropecuária em Debate

11/05/2026

IDS Brasil

O Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), em parceria com o Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP), convida a sociedade civil, o setor produtivo e a academia para uma reflexão necessária: como transformar o motor econômico do Brasil em um modelo de baixa emissão.

Este é o quarto seminário da série “Diálogos Setoriais para a Promoção de uma Economia Verde“. O foco desta edição é o coração pulsante — e contraditório — da nossa economia: o Setor Agropecuário.


O desenvolvimento de uma Economia Verde no Brasil deixou de ser uma pauta periférica para se tornar o centro da estratégia de desenvolvimento nacional. No centro dessa engrenagem está o Plano de Transformação Ecológica (PTE), lançado pelo Governo Federal em 2023, que busca reorientar o Estado e a iniciativa privada sob seis eixos prioritários: finanças sustentáveis, adensamento tecnológico, bioeconomia, transição energética, economia circular e infraestrutura verde.

No entanto, nenhum desses eixos é tão sensível e urgente quanto o de Bioeconomia e Sistemas Agroalimentares. É aqui que o Brasil enfrenta seu maior paradoxo: somos uma potência agrícola global, mas o modelo que garante nosso PIB é o mesmo que lidera nossas emissões de gases de efeito estufa.

O Gigante Econômico e sua Sombra Climática

Para debater o setor agropecuário, é necessário encarar os números com honestidade intelectual. Em 2023, o agronegócio respondeu por 23,2% do PIB brasileiro, movimentando cerca de R$ 3,79 trilhões (CEPEA/CNA). Além disso, o setor sustenta nossa balança comercial, sendo responsável por 49% das exportações totais, gerando divisas de US$ 149 bilhões.

Contudo, a pujança econômica convive com uma pegada ambiental profunda. Segundo o SEEG – Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (2024), o Brasil emitiu 2,3 bilhões de toneladas de CO₂ em 2023. O recorte setorial é revelador:

  • Agropecuária direta: 28% das emissões nacionais (626 milhões de toneladas de CO₂).
  • Mudança de Uso da Terra e Florestas: 46% das emissões totais, intimamente ligadas à expansão da fronteira agrícola.

Somados, esses fatores revelam que mais de 70% das emissões brasileiras nascem no campo. Enquanto o mundo industrializado luta contra o carvão e o petróleo, o Brasil luta contra o desmatamento e a pecuária de baixa produtividade. A transição justa, portanto, não é apenas um desejo ético; é o único caminho para manter a competitividade do país em um mercado global que já precifica o carbono e exige rastreabilidade total.

Riscos Climáticos: Quando o Campo Sente o Golpe

A transição não é apenas sobre “parar de poluir”, mas sobre “sobreviver às mudanças”. O setor agropecuário é, ironicamente, o primeiro a sofrer com o desequilíbrio que ajuda a causar. Eventos extremos como secas prolongadas no Sul e enchentes devastadoras em outras regiões não são mais projeções distantes.

Na safra 2021/2022, a estiagem causou uma redução de 7% na produção nacional de grãos, com perdas em certas culturas chegando a 40%. Isso gera um efeito cascata: queda na renda do produtor, desemprego rural e inflação de alimentos na mesa do cidadão. A adaptação climática — através do manejo conservacionista do solo, uso eficiente da água e sistemas diversificados — é, hoje, uma medida de segurança alimentar.

Tecnologia e Inovação: O Agro 4.0 será para todos?

A Nova Indústria Brasil (NIB) e a digitalização do campo (Agro 4.0) trazem a promessa de uma agricultura de precisão, onde sensores, drones e inteligência artificial reduzem drasticamente o uso de insumos e aumentam a produtividade. Mas aqui reside um desafio de justiça: a conectividade.

A ausência de infraestrutura digital em áreas remotas cria um novo “apartheid” tecnológico. Enquanto grandes latifúndios exportadores se modernizam, a agricultura familiar — que é quem coloca o feijão e o arroz na nossa mesa — fica à margem dessas ferramentas. A transição tecnológica só será justa se for acompanhada de políticas de inclusão produtiva e democratização do acesso ao crédito.

O “Lado B” do Financiamento: A Assimetria do Plano Safra

As políticas públicas brasileiras mostram avanços, como o Plano ABC+, focado em baixa emissão de carbono. No entanto, o motor financeiro do setor ainda opera sob uma lógica de desigualdade. No Plano Safra 2024/2025, a agropecuária empresarial abocanhou R$ 400,59 bilhões (84% do total), enquanto a agricultura familiar recebeu apenas R$ 76 bilhões (16%).

Para o IDS, esse desequilíbrio é um entrave à transição ecológica. A agricultura familiar e a agroecologia são modelos mais resilientes e essenciais para a biodiversidade, mas recebem uma fração mínima do apoio estatal. Reorientar esse crédito é imperativo para que a descarbonização não se torne um privilégio de poucos.

Raça, Gênero e o Trabalho no Campo

Não há sustentabilidade sem o fim da precariedade laboral. A agropecuária emprega 8,4 milhões de pessoas, mas a maioria silenciosa dessas mãos é negra e feminina, frequentemente em condições de informalidade e baixa remuneração.

Indicador SocialRealidade no Campo
Desigualdade RacialTrabalhadores negros predominam em ocupações de maior risco e menor rendimento, reproduzindo heranças históricas da nossa formação agrária.
Desigualdade de GêneroMulheres (30% da força de trabalho) enfrentam invisibilidade no trabalho de cuidado e menor acesso a cargos de gestão.
Trabalho DecenteA transição justa exige que a modernização elimine o trabalho análogo à escravidão e garanta proteção social para trabalhadores temporários.

Também, o debate precisa incorporar o conhecimento tradicional. Povos indígenas e comunidades quilombolas são os maiores guardiões dos nossos biomas. Seus sistemas de manejo não são “atrasados”; são, na verdade, tecnologias ancestrais de resiliência climática que devem dialogar com a ciência moderna.

Um Convite ao Debate: Rodas de Diálogo

Para aprofundar essas questões, o seminário reunirá vozes diversas para responder a perguntas cruciais:

  1. Como os critérios socioambientais de investidores podem fortalecer — e não punir — a agricultura familiar?
  2. De que forma a Nova Indústria Brasil (NIB) pode fomentar a produção nacional de bioinsumos para reduzir nossa dependência externa?
  3. Como garantir que a agenda climática respeite a autonomia e gere renda nos territórios indígenas?

Este ciclo de seminários propõe a construção de um relatório robusto de sistematização de aprendizados, para influenciar diretamente as políticas públicas e o setor produtivo na construção de uma economia neutra em carbono, socialmente inclusiva e economicamente forte.


Serviço ao Leitor

Título do Evento: 4º Seminário – Transição Climática Justa no Setor Agropecuário

Série: Diálogos Setoriais para a Promoção de uma Economia Verde

Realização: Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) e Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP)

Parceiros: ABCD – Ação Brasileira de Combate às Desigualdades, Dieese, CERT – Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade, Instituto Ethos de de Empresas e Responsabilidade Social, Inpacto e Gaia Social

Público-alvo: Setor produtivo, sociedade civil, academia e poder público.

  • Convidados Confirmados:
    • Carlos Ramos Venâncio: Coordenador de Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável do MAPA.
    • Alexandre Ferraz: Especialista em trabalho rural e agricultura familiar.
    • Janaína Fragoso: Analista de mercados sustentáveis e rastreabilidade.
    • Rogério Terena: Representante de saberes e liderança indígena.
    • Nathália Silva de Souza: Especialista em desigualdades raciais e de gênero no campo.

Como Participar:

As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas através do portal oficial do IDS ou via redes sociais do instituto. O debate será transmitido ao vivo com tradução em LIBRAS.

Data: 13 de maio de 2026

Horário: das 14h às 17h

Local (Presencial): Sede do DIEESE – Rua Aurora, 957, 1º andar, Centro/Santa Efigênia, São Paulo – SP.

Inscreva-se: https://bit.ly/4nf0gdz

Participe!

A transição justa não é um destino, mas um processo de construção coletiva. Esperamos por você para desenhar os próximos passos prioritários para o agro brasileiro.

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